Assuntos de Abril

            É início de ano e todas as expectativas são altas, pois temos o ano todo pela frente. Pensando no ano astrológico, iniciamos o ano em abril ou abriu, dar início, começar. Uma série de datas já ultrapassadas passam pelo mês de abril, primeiramente, temos as famigeradas datas –  19 de abril, 21 de abril e 22 de abril – descortinarem uma série de preconceitos e heranças euro-cristãs em nossas vidas num país que foi colonizado. Em alguns anos, também é nesse mês que habita a “semana santa”. Abril é, realmente, um mês que carrega os fantasmas coloniais em sua semântica. Passar por esses marcos temporais nesse mês, não é fácil. Porém, hoje temos o “Abril Indígena” que recheia esse tempo de 30 dias, nessa primeira parte do ano, com o seu ativismo anti-colonial e antirracista.

Live sobre o acesso à Educação por Mariana Massena e a convidada Géssica Nunes
Projeção do vídeo “Sagradas Misturas” de Luanda

            Entre tudo isso, cultura indígena, morte por liberdade, invasão ao Pindorama e presença cristã, passamos a fazer uma série de reflexões nesses dias de abril. O primeiro movimento reflexivo foi organizar atividades que refletissem a importância da cultura indígena na Educação. No canal do instagram do Ateliê Terreiro* fizemos o “Abril Indígena” com participação de Carina Oliveira, Mariana Massena e eu. O tema central foi sobre Educação, com desdobramentos em “Literatura indígena” por Carina, uma Live sobre acesso a educação entre duas mulheres guaranis “Conversa Guarani” por Mariana e sua convidada  Géssica Nunes e eu propus a projeção de “Sagradas Misturas”, questionando se há espiritualidade indígena nos Caboclos da Umbanda. Seria a Umbanda uma aliada a ajudar a perpetuar símbolos coloniais? Ou é apenas uma religião que pratica uma certa mestiçagem, com todo respeito a pluralidade, reunindo diversos cultos num único dogma religioso do Brasil ? Questões para serem refletidas e respondidas, quando for possível.

            Em 19 de abril, fizemos uma pequena intervenção no instagram do Ateliê Terreiro, dizendo: 

Fotografia da Mata Atlântica com intervenção digital por Luanda

O Ateliê Terreiro, reconhecendo a importância da frase canadense “We want to acknowledge that we are on the unceeded land of first nations people” (em português: “Reconhecemos estar localizados em território indígena não cedido”), declara seu posicionamento político, racializado e antirracista, perante as questões indígenas do Pindorama -> atual Brasil.

            No 22 de abril, dilatamos mais um pouco nossa percepção, aliando outros pontos dessa mesma história.

            Vivemos num país com construções narrativas falsas. Com datas muito coloniais que não nos dizem respeito; e que constroem imaginários vazios nas pessoas. Memórias vazias, que não tem referencial histórico indígena e africano. Nossas memórias são dos donos da terra e dos que vieram realizar trabalho, muitas vezes como escravizado, nessa terra. Temos muita memória, mas ela ainda não está no alcance de todes. São memórias que precisam ser descobertas. É preciso tirar uma camada fina que as encobre e deixá-las exposta a luz para a revelação. Com elas assim, livres, podemos ter uma vida mais libertária.

            Quando você ver datas comemorativas do seu país colonizado, pense, “elas são reais?”. São datas que se referem ao invasor e colonizador; que criou memórias distanciadas da nossa etnologia. Procure não comemorar essas datas. São datas que remetem os povos originários e afrodescendentes a invisibilidade. Por isso, hoje é o dia do encobrimento de uma nação plural. Mas através da movimentação de narrativas identitárias étnica-raciais, a mudança está chegando.

“Hoje o Brasil é Marron e a África é Verde” por Luanda

 “Hoje o Brasil é Marron e a África é Verde”, aquarela e desenho, 2021, tratando dos diversos intercâmbios e mestiçagem entre alguns países africanos e o Brasil. Desenho realizado na “Mesa de Griots”.

Notas:

*Ateliê Terreiro é um lugar de reflexão e práticas artísticas indígenas e afro-diaspóricas, anti-colonial, com pessoas racializadas e antirracistas que valorizam a cultura indígena e afro-brasileira. É um local de trabalho que envolve várias atividades: meu ateliê de artista, inclui também um grupo de 10 pessoas, multiétnico e multidisciplinar, que se encontra quinzenalmente, que coordeno há 2 anos e o evento mensal “Ateliê Terreiro Convida”, com convidados externos que contribuam para a descolonização do conhecimento intelectual e artístico.

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